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domingo, 21 de novembro de 2010

TEMPO E VIDA



Por Izaque Real

Somos seres marcados pelo tempo. A nossa existência se dá no tempo. O que existe no universo sofreu a influência do tempo. Enquanto seres terrenos dificilmente conseguiremos fugir dos laços do tempo.

O tempo está entrelaçado com a vida. Ele faz parte da trama da evolução humana e dos demais elementos viventes do nosso planeta. O tempo “juntou a vida à matéria e, depois, o pensamento à vida. Foi o tempo que teceu, dia após dia, a fantástica aventura da evolução...” (STEIGER, 1998, p. 205). Não é possível pensar o desenvolvimento da humanidade sem fazer referência ao tempo.

No tempo muitas coisas se constroem e se criam e outras se desfazem. A vida em si mesma, do nascer, crescer e morrer é submetida a ele. O tempo deixa seus vestígios na vida humana e no universo. Todavia, o ser humano, para não ficar a mercê do tempo, procurou marcá-lo de alguma forma. Temos presente na cultura humana, não por acaso, o calendário e o relógio, entre outros instrumentos que se tornaram uma forma de o ser humano dominar o tempo. Mas, o tempo apesar de estar marcado, ele não deixou de continuar o seu caminho, imprimindo em cada ser suas façanhas. Basta olharmos para o espelho e ao nosso redor. Quantas mudanças!

Dizia o filósofo Heráclito (séculos VI - V a.C): “Não se pode pisar duas vezes nos mesmos rios, pois as águas novas estão sempre fluindo sobre ti” (RUSSELL, 1969, p. 52). Na verdade, sob o jugo do tempo, nada volta a ser o que era antes. Um momento vivido já não volta mais. O tempo transforma a vida e esta é modificada por ele. Diante disso, o que fazer? Tem como desprender-nos do tempo?

Parece difícil escapar das garras do tempo. Entretanto, o ser humano com seu poder criativo procura com grande persistência algo que não esteja sujeito ao domínio do tempo. Nesse sentido é interessante pensarmos a questão da eternidade, pois não poucos mantem sua esperança nela. Visto que com a morte, a pessoa entra numa nova dimensão, no eterno, que não cabe a nós discursar neste momento. Com a ação do tempo estamos em mudança, porém o ser humano e a nossa consciência ocidental busca o imutável.

Contudo, é importante percebermos que o tempo nos conduz a pensar a nossa vida dando a ela um sentido. Um sentido que pode ultrapassar o tempo. Daí a necessidade de cada um lançar sobre o mundo em que vive a consciência de existir para algo, pois sabendo que o tempo de nossa vida é finito, torna-se um imperativo conduzi a nossa existência da melhor forma possível. Enfrentar os acontecimentos cotidianos com um novo olhar, mesmo quando estes são de sofrimento e dor. Buscar fazer da vida algo belo. Tornar a vida bela subjugada ao domínio do tempo é um desafio que exige a coragem de todos os seres humanos.

RUSSELL, Bertrand. Obras Filosóficas: História da Filosofia Ocidental I. Vol. 23. Trad. Breno Silveira. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 1969.

STEIGER, André. Compreender a história da vida: do átomo ao pensamento humano. Trad. Benôni Lemos. São Paulo, SP: Paulus, 1998.

domingo, 15 de agosto de 2010

O ser humano integral


por Izaque Real

Falar de ser humano integral é falar da pessoa nos seus diferentes aspectos, procurando mostrar que ela não deve ser reduzida a um único ponto, mas vista na sua totalidade. A integralidade humana é fundamental para que se entenda o homem nas suas diversas manifestações. Todavia, a integralidade humana nem sempre foi pensada dessa forma. O humanismo ou os humanismos que se desenvolveram, dificilmente enfocava o ser humano como ser integrado, como um todo, onde suas partes estão interligadas.

O homem moderno, por exemplo, distanciou-se de si mesmo. Ele foi reduzido a matéria e pensamento. A modernidade apresentou para a sociedade um antropocentrismo exacerbado, onde o ser humano era capaz de tudo. A realidade racionalista e também empirista levou o homem a abandonar a ideia de transcendência, fixando-se no imanente.

O humanismo moderno, que tem sua fonte no Renascimento (fins do século XIV), concentrou nas mãos do homem um poder de se autogerar. Tentando solucionar os problemas de sua existência, o ser humano procurou eliminar a questão de Deus. No entanto, isso o conduziu ao esvaziamento do significado de humano, no sentido integral.

O homem para preencher este vazio ocupou-se de coisas terrenas, caindo num consumismo e utilitarismo, derivados da concepção de mundo moderna. O homem passa a ser um objeto, sendo manipulado de acordo com sua utilidade. O ser humano deixa, portanto, de ser interpretado na sua integralidade. Um aspecto e outro acabam adquirindo importância em detrimento do todo da pessoa e de seu conjunto de caracteres que a denomina como “humano”.

É diante dessa concepção de ser humano que aparece o Humanismo Integral. Humanismo este desenvolvido pelo pensador francês, Jacques Maritain (1882-1973). Maritain procura com o humanismo integral resgatar a ideia de homem que está aberto ao transcendente. Para isso, ele busca conciliar cristianismo e humanismo, já que na modernidade, esta junção tornara-se impossível, pois a visão de “super homem” era um dos modos pelo qual uma sociedade era considerada perfeita e bem desenvolvida. Enfim, Maritain propõe uma nova significação para o termo humanismo diferente do pensamento moderno.

O humanismo maritanista “tende essencialmente a tornar o homem mais verdadeiramente humano, e a manifestar sua grandeza original, fazendo-o participar de tudo o que, na natureza e na história [...] o possa enriquecer; suas exigências são exaustivas, levando o homem a desenvolver suas virtualidades intrínsecas, suas forças criativas e a vida da razão, se esforçando também a transformar as forças do mundo físico em instrumentos de sua liberdade”. (MARITAIN, 1945, p. 298).

Contrapondo ao idealismo moderno, Maritain ressalta que o humanismo deve atingir dimensões que vão além do imanente, pois o ser humano não é somente biológico ou social, mas ele é também transcendente. O ser humano integral pensado por Maritain é fundamentado na perspectiva cristã. Segundo ele, a ação da pessoa passa do puramente material para o espiritual. O homem como pessoa apóia-se num fundamento transcendente, na abertura a Deus. Desse modo, o humanismo integral reconhece o ser humano nas suas várias dimensões, como sujeito cultural e social, psicológico e espiritual, imanente e transcendental.

O ser humano, enfim, não é um ser reduzível, mas um ser aberto, aberto principalmente ao absoluto, que é Deus. Deus que fora colocado de lado pela época moderna, por esta ser extremamente antropocêntrica, agora na visão humanista de Maritain recebe sua devida consideração, já que para o pensador francês, espiritual e temporal caminham juntos e adquire para a sociedade uma nova forma de ser e existir. O ser humano é um todo e torna-se impossível compreendê-lo por completo senão reconhecer sua integralidade.

MARITAIN, Jacques. Humanismo Integral. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1945.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Natureza: Livro escrito por Deus e um bem para o ser humano


Por Izaque Ferreira Real

O respeito e a preservação da natureza revestem-se de grande importância atualmente, designadamente porque a natureza se constitui como um verdadeiro livro escrito por Deus e um bem para o ser humano. Salvaguardá-la torna-se um imperativo para a humanidade.

Com efeito, são inúmeros os descasos e os perigos que ameaçam a vida dos seres vivos. Basta olhar a realidade mundial: aquecimento global, poluição desenfreada, mudanças climáticas assustadoras, escassez de água, desmatamento sem limites, mudanças no regime das chuvas, entre outros fatores.

A crise ecológica é visível. Ela revela o quanto o ser humano está em conflito consigo mesmo, com as demais pessoas e com o mundo que o circunda. A escolha do homem “por privilegiar o racional e o pragmático em detrimento do afetivo gerou um mundo muito desenvolvido do ponto tecnológico, mas doente no aspecto relacional”[1].

Sem dúvida, a relação entre pessoa humana e natureza foi rompida. Em nome do seu egoísmo e da sua ânsia por riqueza, o ser humano se colocou como dominador da natureza, exercendo uma exploração absoluta sobre ela. “Os recursos naturais foram dilapidados para aumentar o lucro de alguns em detrimento da maioria, colocando em risco nossa própria sobrevivência”[2] .

A extração inconsiderada dos bens da natureza põe em perigo não somente o meio ambiente, mas o próprio homem, pois ele também é vítima da degradação provocada ao planeta. Direta ou indiretamente o ser humano sofre com aquilo que se causa a Terra.

A situação ecológica que se encontra a sociedade hoje é reflexo da cosmovisão moderna, onde a concepção de um antropocentrismo apontava para a existência dual de realidade: de um lado, “sujeito”, de outro, “objeto”. Esta divisão, dualidade, na qual o sujeito, enquanto indivíduo, adquiria suma relevância e as demais coisas existentes eram somente objetos que estariam a sua disposição, possibilitou considerar a natureza como elemento sem alma e também os outros homens como meros sujeitos incorpóreos, porque o que ganhava importância era “o eu penso”, fechado em si mesmo. Daí se evidencia que tanto a natureza quanto os próprios seres humanos poderiam ser dominados e explorados.

A cosmovisão moderna fragmentou a concepção de mundo. Por isso, no momento atual é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clara no modelo de vida estabelecido e no desenvolvimento político-econômico global, buscando favorecer uma consciência ecológica na geração presente. Trata-se de elaborar uma resposta coletiva que valorize o respeito pela natureza e o desenvolvimento integral do ser humano.

Enfim, necessita-se urgentemente que se pense na reciprocidade entre dignidade humana e dignidade do planeta, pois se se fere a natureza, o ser humano também é ferido. “A natureza, entendida como o conjunto de todas as criaturas, deve ser protegida pelo que ela é e não enquanto eventual potencial à disposição do ser humano. O planeta deve ser, portanto salvaguardado em nome de uma dignidade que, para todos os efeitos, lhe é própria”[3] .

A relação de interdependência e interligação entre todas as coisas do universo é fundamental para a existência do ser humano, enquanto “ser-no-mundo”.


Referências:
[1] SILVA, Isabelle Ludovico da. O papel da mulher na conservação do meio ambiente. In. Revista Ultimato, Ano XLII – N° 318, Maio-Junho 2009. p.58.
[2] Ibidem, p.58.
[3] TAVARES, Sinivaldo Silva. A criação em face do novo paradigma ecológico: dom de Deus e responsabilidade humana. In. Revista Convergência, Ano XLV – N° 430, Abril 2010. p. 278.

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