segunda-feira, 28 de junho de 2010

Da dor à Vida


Por Joice Giachini

Quem pode curar-me?!
Não sabe ele dizer-me o que desejo
É um saber sem sentido
Um entender não entendido.

Vivo sem viver em mim
Sem saber como perseverar
Vivendo onde já se vive
Deste viver o que será?
Se vivo assim, mais morro.

Por que não toma o roubo que já roubaste?
Redobra-se assim em mim a dor
Neste sítio sombrio vejam-te meus olhos
Porque deles és a luz
Para eles somente os quero ter.

Neste padecer, persiste dentro em mim
A música calada
A solidão sonora
A noite serena
As quais não quero mais que toquem os umbrais.

Não direi o que sinto
Nem lamentarei o que vivo
Este mal é tão inteiro
Solidão de amor ferido.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Natureza: Livro escrito por Deus e um bem para o ser humano


Por Izaque Ferreira Real

O respeito e a preservação da natureza revestem-se de grande importância atualmente, designadamente porque a natureza se constitui como um verdadeiro livro escrito por Deus e um bem para o ser humano. Salvaguardá-la torna-se um imperativo para a humanidade.

Com efeito, são inúmeros os descasos e os perigos que ameaçam a vida dos seres vivos. Basta olhar a realidade mundial: aquecimento global, poluição desenfreada, mudanças climáticas assustadoras, escassez de água, desmatamento sem limites, mudanças no regime das chuvas, entre outros fatores.

A crise ecológica é visível. Ela revela o quanto o ser humano está em conflito consigo mesmo, com as demais pessoas e com o mundo que o circunda. A escolha do homem “por privilegiar o racional e o pragmático em detrimento do afetivo gerou um mundo muito desenvolvido do ponto tecnológico, mas doente no aspecto relacional”[1].

Sem dúvida, a relação entre pessoa humana e natureza foi rompida. Em nome do seu egoísmo e da sua ânsia por riqueza, o ser humano se colocou como dominador da natureza, exercendo uma exploração absoluta sobre ela. “Os recursos naturais foram dilapidados para aumentar o lucro de alguns em detrimento da maioria, colocando em risco nossa própria sobrevivência”[2] .

A extração inconsiderada dos bens da natureza põe em perigo não somente o meio ambiente, mas o próprio homem, pois ele também é vítima da degradação provocada ao planeta. Direta ou indiretamente o ser humano sofre com aquilo que se causa a Terra.

A situação ecológica que se encontra a sociedade hoje é reflexo da cosmovisão moderna, onde a concepção de um antropocentrismo apontava para a existência dual de realidade: de um lado, “sujeito”, de outro, “objeto”. Esta divisão, dualidade, na qual o sujeito, enquanto indivíduo, adquiria suma relevância e as demais coisas existentes eram somente objetos que estariam a sua disposição, possibilitou considerar a natureza como elemento sem alma e também os outros homens como meros sujeitos incorpóreos, porque o que ganhava importância era “o eu penso”, fechado em si mesmo. Daí se evidencia que tanto a natureza quanto os próprios seres humanos poderiam ser dominados e explorados.

A cosmovisão moderna fragmentou a concepção de mundo. Por isso, no momento atual é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clara no modelo de vida estabelecido e no desenvolvimento político-econômico global, buscando favorecer uma consciência ecológica na geração presente. Trata-se de elaborar uma resposta coletiva que valorize o respeito pela natureza e o desenvolvimento integral do ser humano.

Enfim, necessita-se urgentemente que se pense na reciprocidade entre dignidade humana e dignidade do planeta, pois se se fere a natureza, o ser humano também é ferido. “A natureza, entendida como o conjunto de todas as criaturas, deve ser protegida pelo que ela é e não enquanto eventual potencial à disposição do ser humano. O planeta deve ser, portanto salvaguardado em nome de uma dignidade que, para todos os efeitos, lhe é própria”[3] .

A relação de interdependência e interligação entre todas as coisas do universo é fundamental para a existência do ser humano, enquanto “ser-no-mundo”.


Referências:
[1] SILVA, Isabelle Ludovico da. O papel da mulher na conservação do meio ambiente. In. Revista Ultimato, Ano XLII – N° 318, Maio-Junho 2009. p.58.
[2] Ibidem, p.58.
[3] TAVARES, Sinivaldo Silva. A criação em face do novo paradigma ecológico: dom de Deus e responsabilidade humana. In. Revista Convergência, Ano XLV – N° 430, Abril 2010. p. 278.

O Pipoqueiro Suicida


Por Cláudio Roberto da Silva

Ele a conhecera quando ainda guria, comemorava seus quatro anos, foi encanto a primeira vista, num domingo de inverno do mês de julho, quando as folhas das árvores da Praça de Santo Antônio caíam ao chão ressecadas. Seus olhos azuis pálpebras enrugadas de parecer cansado, brilharam ao ver a menina que vestia um macacãozinho Jeans e nas mãos um pirulito daqueles enormes e um sorriso de estalar vidros. A mãe num primeiro momento achou que o velho a cortejava, pensando ser ela o alvo de seus olhares, ao perceber que era a filha o objeto de sua apreciação se assustou, mas logo se acostumou, pois sabia convencidamente que a filha era mesmo uma criatura encantadora. A menina olhou com seus olhos lindos e arregalados para o pipoqueiro e num grito de menina moleca disse:

- Moço me dá um pacote de pipocas, daqueles bem grandes e coloridos! Ele arriscou uma aproximação e perguntou;

- Qual é o nome da menina linda que me pede pipocas?

Ela respondeu no mesmo grito revelando seu nome. Não direi qual era, para não causar uma comoção ainda maior na estória, mas posso adiantar que era lindo e combinava com flores.

Dois anos se passaram como relâmpagos das tardes de dezembro, a amizade deles crescia e todos os domingos depois da missa das seis, era religiosamente certo o encontro, em que a mãe levava a bela para comer pipocas e prosear com o mais novo amigo.

Naquele domingo da quaresma o pipoqueiro estava misterioso e não conversara com ninguém de sua casa e na praça a todos olhavam com rabo-de-olhos. Algo o incomodava. Suas pipocas pareciam amargas. Quando um casal de jovens pediu-lhe com voz chorosa um saco de pipocas de sal.

- Coitada. Dizia um ao outro.

-Todos os domingos eu a via nessa mesma praça comendo pipocas, foi morta cruelmente, e o carrasco parecia um animal, além de matá-la abusou de sua inocência. O velho pipoqueiro, ao ouvir aquelas palavras que invadiram a alma como um torpedo nas águas de uma praia, assustou e fugiu, entre os becos da Alvino Olegário. Em seu rosto lágrimas incertas e amargas, ao povo que a tudo via se perguntavam; - Que louco! O que deu no velho, e como ficam as pipocas!

Na manhã de segunda o velho fora encontrado suspenso por uma corda que envolvia o pescoço e em uma de suas mãos, uma espécie de carta suicida, que dizia em letras garranchadas.

“Dizem que suicida vai direto para o inferno, sem direito a julgamento. Eu o fiz em forma de protesto, quem sabe em posse do motivo pelo qual me levou a tal ato, reflitam um pouco os de alma carrasca e comportamento animal. Talvez assim me valha o céu. Se não valer mesmo assim ficarei contente, pois saberei que um dia encontrarei por lá o autor da desgraça que não merecia a minha pobre menina e enfim vingarei...”.

Soneto Decassílabo do Amor


Por Roseane de Loudes Miguel


Homem que entraste em minha vida
sonho com seus carinhos amado
cristalino sentimento provado
e contigo me sinto vivida.


Suas palavras encantam o coração
sua boca anjo tem a verdade
em ti encontro a sinceridade
contigo amor não tenho solidão.


Sua beleza é como a flor
minha vida pertence a seus braços
sem ti só me resta algo, a dor.


Teu sorriso é muito sensual
tu tens um olhar que me fortalece
com você quero ir até o final.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Homenzarrão


Por Cláudio Roberto da Silva

- Mamãe, o que é um homem zarrão? Perguntou o menino atônito, parecia ter descoberto uma mata virgem e estar aflito por desbravá-la.

- Um homenzarrão é um homem muito grande meu filho. Respondeu a mulher de olhar perdido no horizonte, e meio sorriso em lábios.

- Iguais aqueles das revistas em quadrinhos e os desenhos animados da televisão?

- Sim meu filho, ou até maiores que estes!

O pentelho franziu a testa, como se tentasse buscar na mente informações que lhe atestasse a cerca do que poderia ser tal coisa, ao mesmo tempo em que ajuntava em seu vocabulário, palavras para construir sua próxima pergunta.

- O meu pai é um homem zarrão mamãe?

A palavra pai a fizera se desprender do presente, e mergulhar como que num túnel do tempo em seus pensamentos, em busca das melhores lembranças daquele que seu coração ama. Ela uma bela jovem de seus 30 anos que acabara de completar sem muita festa, sempre tentava responder a todas as perguntas e curiosidades do filho. Mãe igual a essa é difícil até de se imaginar, aos 15 anos se casou com seu primeiro e único homem. Ele, homem do campo, centrado no trabalho e perfeitamente dedicado à família. Sua baixa estatura nunca o incomodou, e jamais o impedira de trabalhar e nem tão pouco se divertir com a família.

Aquele era seu único filho ela o olhava deitado na cama e seu olhar parecia se perder na atmosfera do cronos, pensava no quanto os anos se passaram rápido desde o seu casamento e tentava medir o quanto aquele menino era especial para ela.

- Mãe, você não me respondeu...

A voz fina de menino falante, suave e rasinha como alguém cansado, arrancou-a pelos braços daquela espécie de viagem astral por seus pensamentos, e a fez recobrar a linearidade dos fatos.

-... O papai é um homem zarrão?

- Não filho, um homenzarrão é muito maior que seu pai, agora vá dormir que amanhã bem cedo o médico vai vir para olhar você.

O menino tossiu por quatro vezes e se contorceu na cama, quando a dor aliviou um pouco tentou dormir, em seus últimos pensamentos antes dormir tentava desvendar o enigma: “Quem poderia ser tal figura maior que seus bravos heróis imaginários? E o que poderia ser maior que um pai?” À medida que se tornava mais difícil a resposta, seus olhinhos lentamente se entregavam ao sono que inevitavelmente vinha. A mãe, atenta o olhava com um profundo olhar de perda.

- Mãe, quando a gente sair daqui, você me leva para conhecer um des...? Resmungou o menino, já absorto no sono. Nem escutou a mãe dizer:

- Sim filho, claro que eu levaria...

A noite corria ironicamente calma, apesar da triste sentença dada pela medicina, ela enxuga suas lágrimas para tentar dormir, o dia próximo lhe reservava emoções muito fortes e ela precisava estar bem para suportar tudo.

Às três da manhã, hora em que devotos e rezadeiras despertam para a primeira oração do dia, o menino em sonho teofânico abre os olhos e vê adentrar o quarto um ser estranho, alto e de beleza encantadora, podia se ver que sorria e em sua volta uma luz ofuscante sem ser agressiva. Minha mãe devia estar aprontando de novo, ela trouxe o tal homem aqui para eu poder conhecê-lo e não me avisou.

Ele vislumbrava com aquela visita, olhava para os lados e percebia que a mãe já acordada chorava, não conseguia entender o porquê das lagrimas maternas, mas o sorriso daquele que o olhava o cativava a se sentir perenemente feliz. Que mistério envolvia o olhar daquele homem, que atração magnética os tomava tanto um quanto a outro. O mais incrível é que Pedrinho, apesar da tenra idade não se assustava e nem se intimidava com a visão, e ver a mãe chorando, misteriosamente não o incomodava. Ele parecia tomado de uma plenitude de contentamento.

- Então você é o homem zarrão que minha mãe falou.

- Sim filho Eu Sou...

De repente a voz do conto se calou em minha mente e as palavras foram desaparecendo de minha caneta esferográfica, quando Yeshuah fez calmamente ressoar sua voz.

- Venha filho, já é hora, voltemos para o outro lado.

Em homenagem a Pedro Lucas ( In memorian ). Tempo Quaresmal. Março de 2010.

Caminhos


Por Rodrigo Adamczwski Ott


Viajei muito tempo
Para encontrar o significado.
Ainda caminho
Por não ter encontrado.


As portas abrem
Sem eu saber o porquê.
Estou indeciso
Se ando com você.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Viajante


Por João Paulo Leal Meireles

José Eurico, ou Zé Eurico como era mais conhecido, caminhava por uma estrada. Estrada esta diferente das outras, porque não havia possibilidade de voltar pelo caminho já percorrido. Era como se a estrada se desfizesse atrás de seus pés a cada passo dado pelo nosso viajante.

Durante o caminho, Zé Eurico conhecia pessoas, umas interessantes e outras nem tanto. Algumas chegavam até a acompanhá-lo por um trecho ou outro do caminho, mas, por mais que quisessem, nenhuma delas podia caminhar por José Eurico. Talvez elas pudessem ajudá-lo retirando algumas pedras do caminho, mas era o nosso viajante quem tinha de traçar e dar cada passo.

Caminhando, ora sozinho, ora acompanhado, Zé percebia que não estava simplesmente caminhando. Aqueles passos eram muito mais do que simplesmente colocar um pé na frente do outro. Ao caminhar, Zé escrevia sua história.

E assim, Zé Eurico prosseguiu sua trajetória até que se viu, não mais diante de um caminho, mas de uma bifurcação em “Y”. “?” Pensou Zé por uns instantes. Ele sabia que uma vez escolhido um dos caminhos, não haveria mais volta.

“Como escolher?” Pensou José Eurico. Nada sabia sobre os caminhos, nem ao menos onde eles iriam terminar. Antes era fácil, só havia um caminho e a única coisa que Zé precisava fazer era colocar um pé na frente do outro e aproveitar o caminho. Mas e agora? Pra que lado deveria o nosso viajante caminhar?

E Zé sentou-se no exato ponto onde a bifurcação se fazia e ficou olhando para os caminhos propostos...

E depois de muito pensar e pensar, eis que surge um outro viajante. Ao passar por Zé, o outro viajante apenas acenou com o chapéu, escolheu rapidamente um dos lados e partiu. Ao ver a determinação e a maneira como aquele homem tinha decidido por um dos caminhos, Zé levantou-se e gritou:

_ Ei. Quem é você?

_ Eu sou um viajante. E você? – disse o homem que diminuía seus passos, mas nunca parava.

_ Eu também sou um viajante.

_ Viajante? Parado aí olhando para o caminho você só pode ser um observante, mas jamais um viajante.

E seguiu o homem a caminhar...

Depois de muito pensar, Zé percebeu que de nada adiantaria ficar ali parado. Enquanto o viajante estava ali sentado apenas admirando os caminhos ele não podia nem ao menos dizer que era um viajante.

Percebeu também que não havia diante dele dois caminhos, mas apenas um, pois no momento em que fizesse a sua escolha e voltasse a caminhar, o outro caminho não mais existiria para ele.

Levantou, respirou fundo e optou pelo caminho oposto àquele escolhido pelo outro viajante. Pensou Zé “quero eu mesmo fazer o meu caminho e não trilhar o caminho por outros já percorrido”.

E logo nos primeiros passos viu uma trouxa pesada na beira da estrada, mas Zé nem chegou perto dela. Era a dúvida. Zé sabia que a dúvida não era boa companhia. Ela tentaria prender o viajante no caminho que não fora escolhido e mais tarde iria convidar a angústia para caminhar junto a eles.

Seguiu então Zé Eurico de cabeça erguida e sem olhar para trás.
Related Posts with Thumbnails