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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os três porquinhos. A versão moderna e real


Por Claudio Roberto da Silva
claudiosilvasemeai@hotmail.com



Era uma vez. Numa dessas muitas vezes em que mano Lobo desceu da “quebrada”, e foi para o centro. Em seu “kombão”, com “sonzera” ligada na maior altura, tocando o cd dos Racionais. Chegando na região “dus bacana”, tocou a campanhinha e foi logo gritando.

— É o” truta” mano, vim buscar “a nota” que tu me deve...

— Não tenho mais grana, velho — Respondeu o garoto. — A mesada acabou e eu já vendi “meus pano” tudo. Num sobrou nada mano, “tô lizo”...

sábado, 4 de setembro de 2010

Mais


Por João Paulo Leal Meireles

Ponha freio em seus sentimentos e viva a vida pela metade. Procure sempre o meio termo, a ponderação. A vida é mais fácil se você não se permitir apaixonar-se. Tome isso para você, pois não é isso que quero para mim.

Nunca me contive diante de uma dificuldade, nunca hesitei diante de um obstáculo, nunca temi um desafio. Venha a mim ocasião e eu me entregarei de corpo e alma, darei o melhor de mim e se merecer, terei a minha vitória.

Eu quero mais. Mais amor, mais dedicação, mais carinho, mais sinceridade, mais emoção, mais vitórias, mais, mais, mais. A subida é árdua e talvez impossível se você não estiver disposto a enfrentá-la, mas eu quero estar no topo e contemplar a vista que os que temem a escalada jamais irão contemplar.

E depois de estar no topo, depois de ver o que poucos podem ver eu quero me jogar. Quero me jogar no espaço infinito e sentir o vento, a paz, a liberdade. Quero ouvir meus pensamentos, quero ter a mente aberta, quero sentir os meus sentimentos.

E mesmo buscando a paz eu quero a guerra. Declaro guerra a todo comodismo, a toda estabilidade, a toda situação. Eu quero mais é ser oposição. Quero experimentar todos os sabores que a vida pode me oferecer e quando tiver de escolher, escolho aquele que mais feliz me fizer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Felicidade


Por João Paulo Leal Meireles


À Rita. Indefinível e surpreendente Rita.

Um dia me disseram que felicidade é sentir-se bem com aquilo que você tem; que você precisa ter consciência do que está ao seu alcance e buscar ser feliz sem esperar atingir este ou aquele objetivo.

Sabe que é verdade? Enquanto busquei algo que não estava ao meu alcance, enquanto quis me moldar para agradar a alguém, eu nunca experimentei a verdadeira felicidade.

A partir do dia em que eu comecei a me sentir bem com aquilo que sou e que tenho, fui invadido por uma sensação de bem-estar, uma alegria nas pequenas coisas da vida. Eu acreditava que o espelho é que deveria gostar de mim, mas eu estava errado. Eu é que deveria gostar do espelho.

Isso não quer dizer, é claro, que você deva viver a “síndrome de Gabriela”: eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim. Claro que não. Você é a única pessoa capaz de impor limites a si mesmo.

Acredite em seu potencial. Melhore seus pensamentos. Isso irá refletir nos seus sentimentos, que irá refletir nos seus relacionamentos, que irá refletir na maneira como os outros te vêem... e por aí vai.

Mas nunca perca de vista a sua essência. Nunca espere ter ou ser algo para ser feliz. O presente não será uma dádiva se você sempre esperar por algo no futuro para sentir-se bem.

Aliás, não pense muito no futuro. Ele é só uma expectativa. Olhe em volta, veja as inúmeras possibilidades de felicidade que estão ao seu alcance e abrace-as. Aprenda com os erros passados e aproveite disso para tornar-se uma pessoa melhor.

Enfim, lute por aquilo que você deseja, mas não espere que essa meta seja alcançada para só então ser feliz. Comece por ser feliz agora!

A felicidade é algo que só existe no presente e para alcançá-la basta que você saiba como encarar a vida. Você pode esperar a vida toda pela conquista de algo ou pode começar a ser feliz agora mesmo com aquilo que você tem. Só depende de você.

sábado, 7 de agosto de 2010

Novos hóspedes em casa - Parte I


Por Emerson Alves dos Santos

Moro em uma casa enorme; na verdade quase uma mansão. Familiares não moram comigo, mas também não moro só; moro com alguns hóspedes. Sim, hóspedes. Gosto de dar abrigo às pessoas e, já que espaço em casa não falta, por que não fazê-lo? Há alguns meses chegaram novos hóspedes, e eu vou lhes contar hein! Como são bagunceiros esses novatos! Nem bem chegaram e já instalaram a desordem em minha casa. Parecem até o furacão Katrina, destruindo parte dos EUA. Nunca coloquei ninguém para fora de casa. Meus hóspedes chegam, ficam algum tempo e depois vão embora por si próprios. Alguns ainda retornam com o passar do tempo; outros creio que nunca mais verei; muitos moram comigo há anos. Mas, como estava dizendo, nunca alguém foi expulso. Porém esses novos não me deram outra escolha; exigi que se retirassem, mas eles recusaram. Vocês acreditam nisso?! Recusaram-se a sair de minha casa! Que absurdo! Não, isso não é correto, a casa é minha e nela mora quem eu quero. Disse a eles que se não saíssem iria chamar a polícia para tirá-los à força e sabem o que me responderam? Que não adiantaria eu expulsá-los não, pois eles retornariam, mais cedo ou mais tarde, e em número ainda maior. Não, basta! Se somente esses poucos já fizeram uma baderna enorme, imaginem um número maior! Parece até loucura, mas acabei deixando-os ficar. E foi a partir daí que minha vida começou a mudar...

domingo, 25 de julho de 2010

A Resposta

Por João Paulo Leal Meireles
joaopioh@hotmail.com



Um pedido muito especial de uma amiga mais que especial.

Eiii, como vai? Que bom que nos encontramos de novo. Eu? Eu estou ótimo. Não, eu não encontrei aquele botão... graças a Deus! Sim, é verdade. Eu parecia obstinado a encontrá-lo, mas depois descobri que não era de um botão que eu precisava. Eu precisava mesmo era de uma RESPOSTA.

É, eu estive meio confuso, mas hoje eu sei que esquecer não era o que eu precisava. Definitivamente não era.

Aliás, esquecer um amor por causa de um sofrimento ou porque o final não foi aquele que esperávamos é crueldade.

E todos os momentos bons, não devem ser lembrados? E tudo aquilo que foi construído? E o quanto aprendemos, crescemos... deve ser apagado da memória só por que o fim não foi o que um dia desejamos? E quem foi que falou que tudo aquilo que desejamos é sempre igual àquilo que é melhor pra gente?

Ora, francamente! Ou se aprende isso ou estamos fadados a sofrer até o último dia de nossas vidas.

Por mais que não termine da maneira como gostaríamos, o amor sempre constrói, modifica e nos torna melhores. É inevitável, sabia? E ainda bem que eu não encontrei o tal botão. Seria como voltar a ser o que era antes do amor chegar e aí, se eu quisesse mesmo estar pronto para o amor, teria que começar tudo de novo, (risos).

Mas então, como eu ia dizendo, o que eu precisava era de uma resposta e é até engraçado falar, mas a resposta estava muito mais perto do que eu imaginava. A resposta para não sofrer por um amor que foi embora é... mais amor!

Não parece óbvio? E é simples assim. E não se trata de substituição também não. Não é trocar um amor por outro amor, Deus me livre. E sabe por quê?

Porque o amor é um só. Ele se apresenta de diversas formas e cada uma dessas formas nos ensina alguma coisa.

Existem muitos caminhos que podem nos conduzir ao encontro do amor, mas no fim ele é sempre o mesmo. É algo que nos completa, que nos faz felizes, que nos faz sorrir assim sem nem saber o porquê.

Então, se for esquecer-se de algo, escolha esquecer-se de esquecer o amor. A vida sem amor não é vida. É, eu já disse isso antes, eu sei. Ah, e fique atento, porque mais cedo ou mais tarde o amor sempre volta, já que nascemos para amar, ser amados e assim, e só assim, sermos felizes.

Se cuida, ein? Tchau.



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Saudade


Por João Paulo Leal Meireles

A senhorita Clara morava na casa amarela, na Avenida Presidente Antônio Carlos, número 25. Todos os dias, pontualmente às dezessete horas e quinze minutos, ela sentava-se na cadeira de balanço na varanda de sua casa para esperar o filho chegar da escola. Isso era tudo o que os vizinhos sabiam sobre ela, já que Clara nunca teve ou procurou ter amizades na vizinhança.

Geralmente Bruninho chegava a sua casa entre dezessete e vinte e dezessete e vinte e cinco, e nunca aconteceu de ele chegar sem que sua mãe estivesse ali na varanda a espera dele. Bruninho era o único fruto bom que Clara trazia consigo daquela violação sexual, sofrida ainda na juventude.

Depois do nascimento do filho, Clara nunca se interessou por homem algum e dedicava a vida exclusivamente a cuidar do pequeno Bruno. Pequeno mesmo, pois Bruninho sempre foi franzino, frágil e incapaz de fazer mal a um pequeno animal, até mesmo àqueles dos quais ele não gostava muito.

E por todos os dias nos quais Bruninho ia à escola o ritual se repetia. Até que um dia aconteceu algo diferente: Bruninho não retornou. Nem às dezessete e vinte, nem às dezessete e vinte e cinto e nem mesmo às dezessete e trinta. A senhorita Clara não soube o que fazer e começou então a entrar em pânico.

Eis que um pouco mais tarde chega à casa amarela uma senhora de idade já avançada, cabelos grisalhos e com aquela aparência de quem leciona há muitos anos. Era dona Carmem, diretora do colégio no qual Bruninho estudava. Ela estava ali para dizer à mãe de Bruninho que seu filho havia sido atropelado bem em frente à escola, logo que a aula terminou e que quando a equipe médica chegou, nada pôde ser feito.

— É mentira! Gritou a mãe desesperada enquanto parecia se desfazer em prantos. A senhora não pode estar falando a verdade. Meu Bruninho vai voltar, ele sempre volta.

Então a senhorita Clara bateu com a porta na cara de dona Carmem. A diretora do colégio percebeu que a mãe de Bruninho não reagiu muito bem à notícia da morte do filho e procurou contatar outros parentes do menino.

E eis que quando a avó de Bruninho chega à casa amarela, na Avenida Presidente Antônio Carlos, não vê Clara sentada na varanda, mas vê a porta aberta. Ao entrar, a avó de Bruninho vê sua filha caída no chão segurando um bilhete que dizia: Meu filho atrasou mais do que o de costume, senti saudades e fui ao encontro dele. Não demoro.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Pipoqueiro Suicida


Por Cláudio Roberto da Silva

Ele a conhecera quando ainda guria, comemorava seus quatro anos, foi encanto a primeira vista, num domingo de inverno do mês de julho, quando as folhas das árvores da Praça de Santo Antônio caíam ao chão ressecadas. Seus olhos azuis pálpebras enrugadas de parecer cansado, brilharam ao ver a menina que vestia um macacãozinho Jeans e nas mãos um pirulito daqueles enormes e um sorriso de estalar vidros. A mãe num primeiro momento achou que o velho a cortejava, pensando ser ela o alvo de seus olhares, ao perceber que era a filha o objeto de sua apreciação se assustou, mas logo se acostumou, pois sabia convencidamente que a filha era mesmo uma criatura encantadora. A menina olhou com seus olhos lindos e arregalados para o pipoqueiro e num grito de menina moleca disse:

- Moço me dá um pacote de pipocas, daqueles bem grandes e coloridos! Ele arriscou uma aproximação e perguntou;

- Qual é o nome da menina linda que me pede pipocas?

Ela respondeu no mesmo grito revelando seu nome. Não direi qual era, para não causar uma comoção ainda maior na estória, mas posso adiantar que era lindo e combinava com flores.

Dois anos se passaram como relâmpagos das tardes de dezembro, a amizade deles crescia e todos os domingos depois da missa das seis, era religiosamente certo o encontro, em que a mãe levava a bela para comer pipocas e prosear com o mais novo amigo.

Naquele domingo da quaresma o pipoqueiro estava misterioso e não conversara com ninguém de sua casa e na praça a todos olhavam com rabo-de-olhos. Algo o incomodava. Suas pipocas pareciam amargas. Quando um casal de jovens pediu-lhe com voz chorosa um saco de pipocas de sal.

- Coitada. Dizia um ao outro.

-Todos os domingos eu a via nessa mesma praça comendo pipocas, foi morta cruelmente, e o carrasco parecia um animal, além de matá-la abusou de sua inocência. O velho pipoqueiro, ao ouvir aquelas palavras que invadiram a alma como um torpedo nas águas de uma praia, assustou e fugiu, entre os becos da Alvino Olegário. Em seu rosto lágrimas incertas e amargas, ao povo que a tudo via se perguntavam; - Que louco! O que deu no velho, e como ficam as pipocas!

Na manhã de segunda o velho fora encontrado suspenso por uma corda que envolvia o pescoço e em uma de suas mãos, uma espécie de carta suicida, que dizia em letras garranchadas.

“Dizem que suicida vai direto para o inferno, sem direito a julgamento. Eu o fiz em forma de protesto, quem sabe em posse do motivo pelo qual me levou a tal ato, reflitam um pouco os de alma carrasca e comportamento animal. Talvez assim me valha o céu. Se não valer mesmo assim ficarei contente, pois saberei que um dia encontrarei por lá o autor da desgraça que não merecia a minha pobre menina e enfim vingarei...”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Homenzarrão


Por Cláudio Roberto da Silva

- Mamãe, o que é um homem zarrão? Perguntou o menino atônito, parecia ter descoberto uma mata virgem e estar aflito por desbravá-la.

- Um homenzarrão é um homem muito grande meu filho. Respondeu a mulher de olhar perdido no horizonte, e meio sorriso em lábios.

- Iguais aqueles das revistas em quadrinhos e os desenhos animados da televisão?

- Sim meu filho, ou até maiores que estes!

O pentelho franziu a testa, como se tentasse buscar na mente informações que lhe atestasse a cerca do que poderia ser tal coisa, ao mesmo tempo em que ajuntava em seu vocabulário, palavras para construir sua próxima pergunta.

- O meu pai é um homem zarrão mamãe?

A palavra pai a fizera se desprender do presente, e mergulhar como que num túnel do tempo em seus pensamentos, em busca das melhores lembranças daquele que seu coração ama. Ela uma bela jovem de seus 30 anos que acabara de completar sem muita festa, sempre tentava responder a todas as perguntas e curiosidades do filho. Mãe igual a essa é difícil até de se imaginar, aos 15 anos se casou com seu primeiro e único homem. Ele, homem do campo, centrado no trabalho e perfeitamente dedicado à família. Sua baixa estatura nunca o incomodou, e jamais o impedira de trabalhar e nem tão pouco se divertir com a família.

Aquele era seu único filho ela o olhava deitado na cama e seu olhar parecia se perder na atmosfera do cronos, pensava no quanto os anos se passaram rápido desde o seu casamento e tentava medir o quanto aquele menino era especial para ela.

- Mãe, você não me respondeu...

A voz fina de menino falante, suave e rasinha como alguém cansado, arrancou-a pelos braços daquela espécie de viagem astral por seus pensamentos, e a fez recobrar a linearidade dos fatos.

-... O papai é um homem zarrão?

- Não filho, um homenzarrão é muito maior que seu pai, agora vá dormir que amanhã bem cedo o médico vai vir para olhar você.

O menino tossiu por quatro vezes e se contorceu na cama, quando a dor aliviou um pouco tentou dormir, em seus últimos pensamentos antes dormir tentava desvendar o enigma: “Quem poderia ser tal figura maior que seus bravos heróis imaginários? E o que poderia ser maior que um pai?” À medida que se tornava mais difícil a resposta, seus olhinhos lentamente se entregavam ao sono que inevitavelmente vinha. A mãe, atenta o olhava com um profundo olhar de perda.

- Mãe, quando a gente sair daqui, você me leva para conhecer um des...? Resmungou o menino, já absorto no sono. Nem escutou a mãe dizer:

- Sim filho, claro que eu levaria...

A noite corria ironicamente calma, apesar da triste sentença dada pela medicina, ela enxuga suas lágrimas para tentar dormir, o dia próximo lhe reservava emoções muito fortes e ela precisava estar bem para suportar tudo.

Às três da manhã, hora em que devotos e rezadeiras despertam para a primeira oração do dia, o menino em sonho teofânico abre os olhos e vê adentrar o quarto um ser estranho, alto e de beleza encantadora, podia se ver que sorria e em sua volta uma luz ofuscante sem ser agressiva. Minha mãe devia estar aprontando de novo, ela trouxe o tal homem aqui para eu poder conhecê-lo e não me avisou.

Ele vislumbrava com aquela visita, olhava para os lados e percebia que a mãe já acordada chorava, não conseguia entender o porquê das lagrimas maternas, mas o sorriso daquele que o olhava o cativava a se sentir perenemente feliz. Que mistério envolvia o olhar daquele homem, que atração magnética os tomava tanto um quanto a outro. O mais incrível é que Pedrinho, apesar da tenra idade não se assustava e nem se intimidava com a visão, e ver a mãe chorando, misteriosamente não o incomodava. Ele parecia tomado de uma plenitude de contentamento.

- Então você é o homem zarrão que minha mãe falou.

- Sim filho Eu Sou...

De repente a voz do conto se calou em minha mente e as palavras foram desaparecendo de minha caneta esferográfica, quando Yeshuah fez calmamente ressoar sua voz.

- Venha filho, já é hora, voltemos para o outro lado.

Em homenagem a Pedro Lucas ( In memorian ). Tempo Quaresmal. Março de 2010.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Viajante


Por João Paulo Leal Meireles

José Eurico, ou Zé Eurico como era mais conhecido, caminhava por uma estrada. Estrada esta diferente das outras, porque não havia possibilidade de voltar pelo caminho já percorrido. Era como se a estrada se desfizesse atrás de seus pés a cada passo dado pelo nosso viajante.

Durante o caminho, Zé Eurico conhecia pessoas, umas interessantes e outras nem tanto. Algumas chegavam até a acompanhá-lo por um trecho ou outro do caminho, mas, por mais que quisessem, nenhuma delas podia caminhar por José Eurico. Talvez elas pudessem ajudá-lo retirando algumas pedras do caminho, mas era o nosso viajante quem tinha de traçar e dar cada passo.

Caminhando, ora sozinho, ora acompanhado, Zé percebia que não estava simplesmente caminhando. Aqueles passos eram muito mais do que simplesmente colocar um pé na frente do outro. Ao caminhar, Zé escrevia sua história.

E assim, Zé Eurico prosseguiu sua trajetória até que se viu, não mais diante de um caminho, mas de uma bifurcação em “Y”. “?” Pensou Zé por uns instantes. Ele sabia que uma vez escolhido um dos caminhos, não haveria mais volta.

“Como escolher?” Pensou José Eurico. Nada sabia sobre os caminhos, nem ao menos onde eles iriam terminar. Antes era fácil, só havia um caminho e a única coisa que Zé precisava fazer era colocar um pé na frente do outro e aproveitar o caminho. Mas e agora? Pra que lado deveria o nosso viajante caminhar?

E Zé sentou-se no exato ponto onde a bifurcação se fazia e ficou olhando para os caminhos propostos...

E depois de muito pensar e pensar, eis que surge um outro viajante. Ao passar por Zé, o outro viajante apenas acenou com o chapéu, escolheu rapidamente um dos lados e partiu. Ao ver a determinação e a maneira como aquele homem tinha decidido por um dos caminhos, Zé levantou-se e gritou:

_ Ei. Quem é você?

_ Eu sou um viajante. E você? – disse o homem que diminuía seus passos, mas nunca parava.

_ Eu também sou um viajante.

_ Viajante? Parado aí olhando para o caminho você só pode ser um observante, mas jamais um viajante.

E seguiu o homem a caminhar...

Depois de muito pensar, Zé percebeu que de nada adiantaria ficar ali parado. Enquanto o viajante estava ali sentado apenas admirando os caminhos ele não podia nem ao menos dizer que era um viajante.

Percebeu também que não havia diante dele dois caminhos, mas apenas um, pois no momento em que fizesse a sua escolha e voltasse a caminhar, o outro caminho não mais existiria para ele.

Levantou, respirou fundo e optou pelo caminho oposto àquele escolhido pelo outro viajante. Pensou Zé “quero eu mesmo fazer o meu caminho e não trilhar o caminho por outros já percorrido”.

E logo nos primeiros passos viu uma trouxa pesada na beira da estrada, mas Zé nem chegou perto dela. Era a dúvida. Zé sabia que a dúvida não era boa companhia. Ela tentaria prender o viajante no caminho que não fora escolhido e mais tarde iria convidar a angústia para caminhar junto a eles.

Seguiu então Zé Eurico de cabeça erguida e sem olhar para trás.

sábado, 12 de junho de 2010

O Botão


Por João Paulo Meireles

Cadê? Onde “tá”? Onde foi que o colocaram? Não é possível, eu não estou encontrando. Deve ter algo de errado. Eu vou reclamar! Não é possível que eles não tenham colocado ele em algum lugar. Deve estar em algum lugar por aqui. Eu sei que ele tem que estar.
Não, eu não sou maluco. Eu estou procurando um botão. É um botão. Onde? Em mim ora bolas. RS, não, não precisa ficar preocupado.
Não é o botão de auto-destruição, não. É o botão do esquecimento. Eu sei que ele tem que estar em algum lugar por aqui. Não é possível que tenham me feito sem um desses!
Talvez você esteja se perguntando o que eu quero esquecer. Bom, mas isso eu não vou contar. Não, eu não vou te contar. Ora, se eu estou tentando esquecer algo eu vou sair por aí contando pra ter que me lembrar cada vez que eu contar? Aí não tem botão que agüente. Por falar nisso cadê ele?
Me ajuda a procurá-lo? Umm, só ajuda se eu contar o que vou esquecer? Chato! Nem precisa, eu acho sozinho.
...
Ah, desisto. Acho mesmo que esqueceram de colocá-lo em mim. Bom, já que eu não posso esquecer, vou te dizer o que é: quero esquecer o amor. Por quê? Ora, não me interrompa! Agora que decidi contar, deixa-me contar de uma vez.
Quero esquecê-lo porque ele me faz sofrer. É claro que amor faz sofrer. Amor que vai embora deixa um vaziiiiio; quase que insuportável. Verdade. Você nunca amou, não?
Oh, que triste! A vida sem amor não é vida. Pior ainda é experimentar o amor um tiquinho só e depois você olha pro lado e ele não está onde deveria estar. Pra quem nunca viveu o amor isso é impossível de entender. Pra quem nunca o perdeu, menos ainda.
Amor é droga depreciativa do sistema “inteligencial”. É, a gente fica burro, sonso, não vê as coisas como elas realmente são. Mas é isso é que faz do amor a melhor coisa que existe. Ele cria um mundo próprio que só os que amam são capazes de ver, ouvir, tocar ou sentir.
...
Eu nem sei por que estou dizendo essas coisas. Era pra eu estar esquecendo o amor a uma hora dessas. Onde será que puseram aquele maldito botão?
O quê? Ah, você deve estar brincando. Como assim eu não tenho um botão do esquecimento? Eu sou o quê? Ser humano? E você vem me dizer que seres humanos não têm botão do esquecimento.
Então o que eu faço com isso? Essa dor, essa angústia, esses pensamentos que vão e vêm toda hora... Esquecer? Mas você mesmo não acaba de me dizer que eu não tenho um botão do esquecimento?
Por quê? Você quer saber por que ele foi embora? Ah, talvez por que não era amor. Ou talvez por que tinha de ir. Sei lá, mas isso não vem ao caso.
Ah, quer saber? Já que não tenho um botão do esquecimento, eu vou é lembrar! Vou lembrar de tudo o que vivi, de como me senti, de tudo que fizemos de bom, de todos os momentos felizes ao lado dele.
Me pergunta se ele ainda vive? Mas é claro que vive! Vive em mim. Vive nas lembranças. O amor ainda vive no amor que existe em mim.

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